A AVENTURA DO PENSAMENTO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Loading...

Pesquisar este blog

Carregando...

terça-feira, 12 de abril de 2011

A FILOSOFIA DE BARUCH ESPINOSA (1632-1677) NO CONTEXTO DO RACIONALISMO


A meditação de Baruch Espinosa (1632-1677) é, no sentir de Hegel, o “ponto alto da Filosofia Moderna”.

Tamanho elogio, feito pelo fundador da História da Filosofia, não é gratuito. A metafísica do pensador judeu-holandês corresponde, junto com a de Leibniz (1646-1716), à mais acabada síntese filosófica do século XVII, ao pretender resolver os problemas do dualismo cartesiano e da contraposição razão / tradição.

No caso da meditação luso-brasileira, o aprofundamento na filosofia espinosana é especialmente proveitoso, porquanto ela representa uma vertente que permanece imanente à cultura portuguesa, como acuradamente tem sido mostrado por estudiosos da talha de Joaquim de Carvalho, Pinharanda Gomes e Alcântara Nogueira.

Mencionemos as principais obras deste pensador: Breve tratado (1660), Tratado da correção do entendimento (1660), Ética demonstrada à maneira dos geômetras (1663) e Tratado teológico-político (1670).

Teses fundamentais da Filosofia de Baruch Espinosa.

1 – A Razão, caminho da salvação: Expulso da Sinagoga de Amsterdã, Baruch Espinosa viu se fechar a via da Tradição Religiosa, que lhe garantia, como judeu, a salvação. Somente lhe restou um caminho: o de procurar a salvação na Razão. E dedicou-se, com afinco, a procurá-la, na sua meditação filosófica.

2 – Espinosa partiu da radicalização da noção de Substância, que passou a definir, na sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras, como: “O que existe em si e por si é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não carece do conceito de outra coisa do qual deva ser formado”. Ora, radicalmente só pode haver uma substância: Deus, que se dá a si mesmo a existência, sem depender de outrem. Essa substância, a única que existe, é denominada por Espinosa de “natura naturans”, ou “natureza naturante”.

3 – O que são o Homem (Pensamento) e o Mundo (Extensão)? Eles são, segundo Espinosa, “afecções da substância infinita” ou “natura naturata” (“natureza naturada”). “Afecções” ou “modo”, são entendidos por Espinosa como “o que existe numa outra coisa pela qual também é concebido”. Assim, para o filósofo, Pensamento e Extensão não seriam nada mais do que afecções (ou acidentes, na terminologia aristotélica) da Substância Divina. Nela, como dizia São Paulo se referindo a Cristo, nós e o Cosmo “vivemos, nos movimentamos e existimos”. O Homem e o Mundo, para Espinosa, poderíamos dizer que “navegam em Deus”. O Mundo é manifestação finita dos infinitos atributos divinos. O Homem, idem. Não são duas substâncias antagônicas, nem são substâncias em si mesmos, apenas “afecções” ou acidentes da Substância Divina. Está, portanto, superado o problema do dualismo metafísico cartesiano. O sistema espinosano não é propriamente um panteísmo (pois, nele, Deus e Mundo se identificam), mas um panenteísmo (pois para o filósofo o Homem e o Cosmo “navegam” em Deus, como acidentes da Substância Divina, sem se identificarem com ela).

4 – Conseqüência no terreno do conhecimento: “Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido”. A verdade consiste em enxergar tudo o que existe em Deus, que é a sua condição de presença no Ser. O pensador elabora uma filosofia radicalmente monista, como fizera Parmênides. Fora do Ser, nada há. Tudo deve ser referido a ele. Essa radicalidade inspirará a outros pensadores, notadamente a Hegel, com o seu conceito arquetípico de Idéia.

5 – Conseqüência no terreno da liberdade: Ser livre consiste, para Espinosa, em existir exclusivamente pela necessidade de sua natureza. Plenamente livre, em sentido rigoroso, somente é Deus, que “existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e por si só é determinado a agir”. Podemos dizer que o homem é livre, não no sentido do livre arbítrio, mas no sentido ontológico, ou seja, quando se reconhece como necessariamente existindo e agindo em Deus. Liberdade, para Espinosa, seria, portanto, do ângulo antropológico, “reconhecimento da necessidade”. Marx aderiu a essa noção na sua obra A Ideologia alemã.

6 – Conseqüência no terreno da antropologia: corpo e alma são duas manifestações acidentais da substância divina, sendo um a idéia do outro: o corpo é a idéia da alma, a sua representação. Está superado, destarte, o dualismo antropológico cartesiano. Espinosa funda, de outro lado, a teoria do psicossoma, que tanta importância terá no desenvolvimento da psicologia e da psicanálise, ao longo do século XX. O controle das nossas paixões advirá do fato de projetarmos a luz da nossa inteligência sobre a vivência primordial que deu ensejo a elas. Freud, evidentemente, inspirou-se neste aspecto da filosofia espinosana.

7 - No terreno da filosofia política, Espinosa formulou o ideal da democracia radical, que poderia ser sintetizado assim: o melhor regime político é aquele no qual todos os seres humanos (cada um deles sendo manifestação acidental da Substância Divina), sem exceção, possam ver defendidos os seus interesses. Não há interesses espúrios, pois cada um de nós é manifestação da Substância Divina. O único limite para a defesa dos nossos interesses consiste no desconhecimento, por nós, dos interesses dos outros. O meu direito termina quando começa o direito do outro.

8 – No terreno religioso, vale princípio semelhante: todas as manifestações são válidas, na medida em que cada crente espelha uma manifestação finita da essência infinita. A tolerância religiosa será o corolário natural deste princípio.

9 – Papel hermenêutico da Razão Humana em face das Religiões: diante de qualquer Tradição Religiosa (o filósofo pensava, inicialmente, na Tradição Judaica encarnada na Torah e no Talmud), o papel do filósofo consiste em se perguntar em virtude de quais vivências das comunidades e dos indivíduos foram se formatando as Tradições Religiosas. Assim, por exemplo, a crença dos cristãos na ressurreição de Cristo, deveria conduzir os estudiosos a mergulharem nas razões que teriam levado os primitivos cristãos a postularem, como fato revelado, a Ressurreição do Mestre. Baruch Espinosa situa-se, assim, nas origens da ciência da hermenêutica, que, para a tradição bíblica, deu ensejo ao Método da História das Formas (Formgeschitemethode).

10 – O homem, na concepção política espinosana, insere-se estritamente numa concepção naturista. As paixões levam o homem a perseguir necessariamente os seus desejos. A liberdade é entendida como livre necessidade, que consiste em se adaptar à ordem necessária pré-fixada e não em se contrapor a ela.

Um comentário:

Andreia Borges disse...

A filosofia de Baruch Spinoza e fabulosa, para ele o verdadeiro poder que liberta e eleva o homem está na mente e no conhecimento
sócrates já dizia: "vício é ignorância e virtude é conhecimento

Nós seres humanos sofremos pq somos refens da passividade, Vicio são os sentimentos e virtude passarmos da passividade a grande ação